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Casa da Achada

Leitura Furiosa 2009 em Lisboa

 

 

Desenho de José Smith Vargas

ONCE AGAIN
ENCORE UNE FOIS
MAIS UMA VEZ

 

“I’ve heard the cries, and felt the pains”.
Tem dez anos e obrigam-no a fugir. Segue a família, pela madrugada. Chove. Avançam devagar, até à curva do rio.
O mato encobre o inimigo. A morte.
Alcançam Freetown. Fadiga e vontade de ficar.
Mas tornam a partir. E é então que os caminhos da família e o dele divergem. Para sempre.
O sol queima.
Têm sede. Não sabem para onde vão.

 

A neve e a água de Caxemira.
Tanta água!
Sim, mas também os rebanhos. A lã que há-de chegar aos teares. E os bosques, onde ele próprio ia cortar lenha.
Nisto, tudo lhe ficou para trás. Água, bosque, ferramenta. A pashmina cereja e ouro de uma rapariga.
Tinha vinte e sete anos.
Mas porque há-de um homem deixar a serra com que corta a lenha? Porque tem ele de fugir?
Abateu uma vaca. E disse: “Caxemira independente! Já!”
Na sua terra estão oitocentos mil soldados prontos a perseguir quem dê vivas à independência.
Quem molestar uma vaca.

 

“Molestaram-te?... Quem?!”
O homem com quem a tinham casado à força.
“Onde?...”
Numa aldeia, muito para lá de Conakry.
“Que idade tens?...”
Dezasseis anos. Talvez menos.
Se não tivesse conseguido alcançar a fronteira, seria a quarta mulher de um militar que já passara dos cinquenta.

 

“Foste corajosa, minha filha! Deixei cinco filhos no Congo, e tu podias ser uma das minhas filhas.
Eu era diplomata, e fui muito amigo do Primeiro-ministro. Depois... os golpes de Estado, as tribos a matarem-se umas às outras...
Muitos dos que morreram eram meus parentes. Mas eu fugi. Consegui atravessar o rio. Chegar a Angola.
Vinha sem papéis. Quem foge raramente trás documentos consigo. Eu queria embarcar para a Bélgica, mas não consegui visa: não tinha provas de ser do Congo. Vim para cá.
Acolheram-me. Já passaram três anos, e continuo sem passaporte.
Tu, minha filha, ainda tens idade para ser corajosa! Mas um homem como eu, saber onde pertence e não pertencer a parte nenhuma, só porque não dispõe de um papel com a sua foto...
Sinto que vou endoidecer!”

Ouvi os gritos,
e senti a dor.
ONCE AGAIN.

Alexander Dennis, Asif Meher, Aïssaton Diallo e Claude. Com:
Filomena Marona Beja

Centro Português para os Refugiados

Lisboa, 15 de Maio de 2009

 

 

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