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Áreas Principais

 

 

Casa da Achada

 

 

Texto de Regina Guimarães

 

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Era uma vez um homem que desenhava. Esse homem desenhava muitas vezes a pessoa que ele amava. Há quem julgue que o desenho serve para encher as folhas brancas que são árvores transformadas em papel. Há quem ache que o desenho deve ser bonito para embelezar o sítio onde será colocado. Há quem imagine que o desenho tem como principal utilidade calcular as formas das casas, das fábricas, das pontes ou até das telas onde depois o desenho se veste de tintas e se passa a chamar pintura. Porém, quem não se esquece do que acontece a primeira vez que se pega num lápis e num papel sabe que se desenha principalmente para falar. Com ou sem palavras à volta. E é por isso que não será de espantar que os homens possam desenhar quem amam e o que amam.
Por vezes, o homem que desenhava a mulher que amava, desenhava-a para a ver melhor, para a conhecer de ainda mais perto e descobrir coisas nela que ainda não vira - porque lhe parecia que se conversa melhor com alguém que se aprendeu a conhecer por fora no lugar do desenho - que é um lugar de fora e dentro - e porque essa pessoa podia assim olhá-lo por dentro e já não apenas por fora, etc. Outras vezes, o homem confundia-se com a mulher que amava no mesmo desenho. E isso era belo e explosivo e da cor do sangue emaranhado nas veias, mas dificilmente podia ser assunto de conversa, pois ele há coisas que nem o amor, nem o desenho dizem. Nessas vezes, o desenho era um recado, um daqueles recados que se deixam debaixo da porta ou espetados na parede para dizerem principalmente o que não dizem. Por exemplo: «não te esqueças de levar a camisola de lã porque está um frio de rachar» quer dizer «estou a pensar em ti e nas horas em que andas sem mim ao frio». Etc.

 

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Quando a mulher amada consentia em deixar-se desenhar sentada - e isso nem sempre era possível porque ela tinha muitos afazeres - o homem sentia grande prazer em desenhá-la naquela posição de conversar e tentava registar não apenas uma posição parada no tempo mas o tempo da própria conversa. Então a figura da mulher desdobrava-se em várias e parecia que as suas pernas, os seus braços, as madeixas dos seus cabelos varriam o desenho como grossos fios de uma longa meada.

 

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Vezes havia também em que a mulher, demasiado atarefada, não podia quedar-se sentada por muito tempo, mas o homem conhecia-lhe tão bem as linhas do rosto que rapidamente desenhava o seu retrato, o qual ficava fulgurantemente parecido com o original. A ponto de a mulher achar que era mais ela dentro do retrato, embora feito quase de uma só linha, do que fora dele.

 

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Para certos desenhos, o homem passava horas e horas. Punha neles muitas sombras e pregas e dobras, porque assim são as pessoas e as coisas, cheias de cantos e recantos onde se refugiam e a partir dos quais enfrentam o mundo. No fim, pousava o desenho no chão da cozinha, olhava para ele com muita atenção, olhava para ele como se não tivesse sido feito pela sua mão, e começava a pensar que talvez tivesse exagerado no pormenor, que talvez faltasse faltar alguma coisa ao desenho para poder haver conversa e que conversar com um desenho muito acabado se parecia demasiado com falar com uma parede. Ficava um pouco triste, mas dizia para consigo que um desenho é aquilo que permite que haja um desenho a seguir a esse desenho, sendo sabido que as melhores conversas são as que deixam um rabinho de fora para se poder continuar a falar amanhã, depois de amanhã e sempre. Enrolava então o desenho com ar de operário que arruma os seus materiais e enquanto procurava lugar onde guardá-lo, pensava no depois que há a seguir aos desenhos, e no antes de os fazer, no grande amor que é preciso para não desanimar entre o antes e o depois, para não falar no durante que é tão pesado embora voe como as penas e se esvaia como fumo.

 

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Havia dias em que escolhia fazer desenhos grandes e a cabeça da mulher que amava ocupava o espaço de metade de um corpo de gente crescida. Riscava depressa como quem não quer perder um determinado olhar, uma certa luz escura nos olhos, uma inclinação da cabeça muito especial. E o coração batia também depressa dentro do peito. Quando acabava, sentia-se muito cansado, tinha gasto muitas palavras de amor nuns tantos riscos e, para não haver desperdício, pendurava o desenho ao lado do lugar onde costumava trabalhar em silêncio. Se no meio do seu trabalho levantava os olhos para uma breve pausa, logo era apanhado pela expressão triste e interrogativa do seu desenho e ouvia uma espécie de lamento: «Não me deixes para aqui a falar sozinha, agora que me soltaste o pensamento, pois eu sinto todas as palavras entaladas na garganta e quase sufoco com este quase sorriso que me desenhaste na boca».

 

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Então, o homem largava o que estava a fazer e de novo desenhava a mulher que amava. Tentava desenhá-la numa posição mais frontal, ainda com a cabeça inclinada mas com olhos capazes de olhar nos olhos mas também para além dos olhos. Ele sabia por experiência que os desenhos podem olhar o que está para lá de, como se olhassem o futuro e o trouxessem para o coração das conversas que não acabam.

 

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Acontecia o homem passar tanto tempo a desenhar que o futuro acabava por esbarrar com o presente e ele adormecia exausto sobre a folha de papel. Ninguém sabe se sonhava ou se descansava dos sonhos que sonhara de olhos abertos. Mas sabe-se que os olhos da mulher desenhada velavam sobre o seu sono. Para que fosse justo e seguro do despertar. Quando o homem por fim acordava estremunhado e se preparava para ir dormir o resto da noite numa cama com colchão e almofada, lençóis e cobertores, olhava de relance os retratos que desenhara e desejava-lhes boa noite. Mal virava costas e se enfiava meio sonâmbulo pelo corredor que levava ao seu quarto, todas as mulheres amadas, desenhadas ou por desenhar, semicerravam os olhos, pousavam o rosto sobre as mãos e aproveitavam o repouso de quem as desenhara para, durante algumas horas, descobrirem dentro de si as coisas estranhas e desconhecidas que o homem vira nelas. Porque era essa a missão que o artista lhes confiara: serem sempre e cada vez mais intensamente estranhas e desconhecidas.


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A casa grande, ainda em grandes obras, que hoje nos abriga só existe porque um homem e uma mulher desenharam futuros que estão a acontecer muito para além do tempo que lhes foi dado conversarem um com o outro, através das suas várias artes de viver. Ambos professores, viveram modestamente dos seus salários de funcionários, pondo de lado dinheiro suficiente para que, sem que isso fosse exactamente destinado por nenhum deles, esta Casa da Achada um dia viesse a abrigar os desenhos, as pinturas, os livros e os muitos escritos que nos deixaram. Ambos sonhavam com outras formas de viver e com um mundo novo onde elas fossem possíveis e necessárias. Neste último dia de 2008, 15 anos depois de ter morrido Mário Dionísio, o homem de que falamos, faz sentido estarmos aqui a começar a habitá-la, desenhando futuros e, assim, cumprindo, no presente, um futuro que nunca ficou completamente desenhado.

 

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André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017