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Tudo em Mário Dionísio era fino e delicado, desde os aros dos óculos aos lábios apertados que, quando sorriam, era mais para marcar uma distância do que uma cumplicidade. Sentava-se na cadeira, por detrás da secretária, que se alteava naqueles estrados que havia então, e discorria, com os olhos sempre muito moventes, a face ligeiramente crispada, a cabeça inclinada para trás. Não era apenas o expender da lição, ressabida de tantos anos de cursos. Às vezes, punha-se a reflectir em voz alta, e interrogava-se, sobre um problema pensado na véspera, como se os nossos quinze anos fossem merecedores disso. Logo na primeira aula de literatura pediu-nos que escolhêssemos um livro de que tivéssemos gostado e que o comentássemos. Recordo-me de que, muito pimpão, comecei logo por declarar à cabeça qualquer coisa como "eles são tantos que escolher um é difícil". Lá acabei por me pronunciar sobre a Seara de Vento de Manuel da Fonseca e O Verdadeiro Silvestre de Mário Soldati. Curiosamente, o pedantismo galaroz da primeira frase (a que hoje, nem de longe nem de perto me atreveria...) passou sem reparo. Mas o texto veio-me devolvido com inúmeros sinais, a tinta vermelha, e um comentário final, numa letra miúda e clara. Eu havia utilizado várias vezes o verbo "impressionar", já de si vazio, para exprimir o efeito causado por um livro. Percebi então que se tinha acabado a impunidade da grande frase, a benevolência para com o lugar-comum e o verbo de encher. Por cada afirmação passava a ter de pagar um preço. Não sei o que guardo mais das aulas de Mário Dionísio: se esta vigilância rigorosa sobre a palavra escrita, sempre sujeita a direitos alfandegários e a taxas onerosas; se a descoberta duma literatura portuguesa que, até aí, me surgia como puro enunciado de nomes e se revelava, afinal, uma matéria viva e plástica, pronta a comunicar connosco desde o fundo dos tempos; se o exercício dum humor muito subtil e contido, não desprovido de ironia, ou mesmo, de um leve sarcasmo, que era a marca rara dum espírito que não admitia a vulgaridade ao perto. Sentia-me, de certo modo, lisonjeado por alguém reflectir e enunciar dúvidas na nossa frente e nos julgar merecedores e capazes de reconhecer o alcance duma ironia. Mas também incomodado, porque a ligeireza e o flauteamento de antes, dos anos em que se podia escrever, impunemente, "Camões é, sem dúvida, o maior poeta português" tinham, ali, caducado. Tudo se tornava, evidentemente, mais difícil que a fraseologia despachada e memorizada de antes. E essa noção talvez tenha ficado para sempre: aquilo era complexo, contraditório, paradoxal. À literatura não havia frase que não ficasse curta ou excessiva. Nenhum enunciado servia ao texto que não houvesse de ser retirado, num transpirado esforço, de dentro do próprio texto. "O meu amigo, – tratava-nos nesta terceira pessoa, afastada e neutra – vai pela rua e encontra um papel em que vem escrita esta cantiga de amor, e mais nada. Como é que sabe que é uma cantiga de amor?". E tudo havia de ser sustentado e comprovado na discussão.

 

Nomes até então escondidos e insuspeitados, Garcia de Guilhade, Abraão Usque, Amador Arrais, iam sendo trazidos à superfície, lidos, comentados. Na ideia de Mário Dionísio, um pouco descrente da receptividade daquela turma destinada ao Direito, seriam nomes para esquecer mais tarde, mas que ele tinha ali obrigação de estimar e lembrar. "Aproveitem agora esta oportunidade – chegou a dizer – os meus amigos nunca mais na vida pegarão em João Ruiz de Castello Branco..." Estava enganado. Apresentou-nos uma série de autores a que se vai voltando sempre, porque com eles fomos iniciados nos mistérios desta Língua e desta Literatura.

 

Explicar aquilo que - e A Paleta e o Mundo bem se atarda sobre este tema... – não é explicável; saber gostar do que não anda nas lembranças de toda a gente; compreender a mudança, sempre a mudança, e a relatividade de tudo. E desconfiar, sobretudo, desconfiar das facilidades. Foram lições com que ainda hoje se aborda um texto literário ou se percorre um artigo de jornal. E que tornam sobremaneira ridículos uns pequenos entes que se arvoram, ora sobranceira, ora sabujamente, em críticos, sem terem manifestamente com quê.

 

A pouco e pouco a figura de Mário Dionísio foi-se-me desvendando. Não era apenas o professor rigoroso e exigente, o enunciador de dúvidas e demolidor de banalidades que nunca faltava às aulas e exigia margens suplementares nos pontos que lhe dessem espaço para os comentários, umas vezes bem humorados, outras vezes azedos : "Fora do assunto!, "Viva a imaginação!", "Desde o sexto ano que se vem tentando fazer compreender ao aluno que...", "E. O." (erro de ortografia). Era o escritor de que o meu pai me falava com admiração e que suscitava rumorejos respeitosos dos colegas mais bem informados. O mais importante teórico do neo-realismo. O autor da célebre Ficha 14. De A Paleta e o Mundo. Dalguns dos mais interessantes textos de ficção que se escreveram neste século. E, na altura, ficou um grande e ingénuo espanto por aquele homem de figura miúda e pequenos gestos meticulosos – a imagem mesma da urbanidade – ter escrito um conto como Sardinhas e vento...

 

Depois o liceu acabou. Veio a Faculdade de Direito. As crises académicas. Apolítica. Chatices. A Revolução. Foram rolando os tempos. A vida propiciou aproximações de acaso que não tiveram para ele qualquer importância. Em dada altura, publicou o Monólogo a Duas Vozes, porventura um dos livros de contos mais belos dos últimos tempos. Recebeu-o o descaso lorpa dos zoilos. Pior para os zoilos... A vida e a obra de Mário Dionísio foram sempre o "brado de rebeldia" em que fala a canção. Contra a ditadura, decerto. Mas também contra o esterótipo, a facilitação dos dogmas e ideias estabelecidas por amigos e companheiros. Valia mais a busca da verdade e da autenticidade. Multiplicada resistência, frutuosa resistência, que bem justifica a homenagem que neste mesmo museu se lhe presta.

 

Mário de Carvalho

in «Não há Morte nem Príncipio» - a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017