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Capa livro: O Riso Dissonante

 

Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950, col. Cancioneiro Geral nº 4

A edição especial de 40 ex. tem retrato de MD por Júlio Pomar (1950) e autógrafo de MD.

 

No Riso Dissonante sente-se [...] uma compenetração que só muita luta e muita experiência permitem, num mundo que, pela sua desarticulação, nos abre constantes hiatos na nossa sinceridade e nos forma segundo vários estratos, despegados, de reacções psicológicas.

Óscar Lopes (1950)

 

 

à  Maria Letícia

 

chapelinho de quadrados
de vagar pela rua frenética
com uma fímbria de sol no laço
e uma saudade solta

 

desce um ar de natal sobre os passeios
sobre as pessoas sobre os carros
e um olhar sem palavras que flutua
põe-se a dizer de manso
antigamente

 

sinto surpreso que há momentos
em que as próprias rugas sabem bem
e ao nosso lado
numa alegria de cabelos soltos

o passado e o futuro correm de mãos dadas

 

 

***

 

falar com o relógio na mão
pela noite suspensa entre paredes emprestadas
falar com o relógio na mão
cortando o sonho aos pedacinhos comportáveis

 

falar com o relógio na mão
quando eram poucos os dias e as noites
falar com o relógio na mão
quando eram poucos os meses e os anos

 

falar com o relógio na mão
falar pensar olhar seguir amar
e amar e amar com o relógio na mão

eis o destino imediato

 

 

***

 

mil anos que viva não se apaga
a imagem sombria e vacilante
dum homem desconhecido numa esquina
com um lenço na mão manchado de sangue

 

uma imagem sombria e vacilante
cambaleante no regresso instável
das zonas baças onde o tempo pára
com um lenço na mão manchado de sangue

 

cambaleante no regresso instável
sem se lembrar da rua onde morou
só com uma ténue sombra do passado
no lenço na mão manchado de sangue

 

ninguém sabia a sua história
ninguém ouvira a sua voz
de seu só tinha bem pesado
um lenço na mão manchado de sangue

 

não tinha voz não tinha nome
não tinha pais não tinha amigos
não tinha lar só tinha um lenço

na mão manchado de sangue

 

 

***

 

a Manuela Porto

 

móvel move-se o imóvel
na quieta quietude inquieta
um fio de canto molha o musgo
no claustro das raízes profundas

 

por aqui por ali empalidece
a sinalização dos hábitos
as trepadeiras dizem dê-me as suas ordens
uma outra vida espreita no planeta

 

 

***

 

o irrecuperável
recuperado ei-lo aqui sorrindo
com a boca torcida mas feliz

 

com os braços esmagados mas feliz
o que não volta eis volta
por ignoradas mãos
numa hora esquecida
entre as horas marcadas

 

possível  o recomeço
possível  o sobressalto
possível  o sonho solto
possível  um mundo novo
possível  o impossível

 

outro é o destino do homem

 

 

***

 

uma mulher quase nova
com um vestido quase branco

numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

 

vem e quase estende os dedos

ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

 

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos

transparente quase solta

 

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

 

Mário Dionísio

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017