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Mário Dionísio. Meu professor de Francês.

 

De quem foste aluno? Com quem aprendeste? Sempre direi, logo, sem precisar de pensar e com enorme alegria: Mário Dionísio. Aprendi o quê? Francês. A disciplina chamava-se assim. Foi isso que aprendi. Só? Sim: porquê? E foi a partir desse momento, creio eu, que me lembro de ter começado a pensar e a saber do que gostava. Foi cedo. Tinha dez anos. Era o primeiro ano do liceu. E só aprendíamos Francês. Mas quando em 1967 saiu Le feu qui dort foi como uma prenda. Agora já o mundo podia perceber. A língua das nossas aulas também era uma língua com que o nosso professor escrevia poesia. Eram aquelas palavras, aquela gramática, aqueles sons. Conjugar os verbos, aprender vocabulário, ouvir as nasais, conseguir dizê-las, repeti-las muitas vezes, decorar as consoantes duplas, perceber o uso do conjuntivo, eram também a poesia que escrevia o professor e eram as nossas aulas. Àquelas palavras, àquela língua passou logo a juntar-se uma maneira de aprender, de estarmos todos na aula: combinar como se escreve o caderno, ouvir um disco com uma história, cantar uma cantiga, desenhar para saber os nomes das coisas, criar cumplicidades. Construímos uma maneira de trabalhar. Travail foi aliás uma das primeiras palavras que escrevemos. Todos os dias haveria "Travail pour l’étude". E nunca percebi porque lhe criticaram a maneira de distribuir aos alunos os exercícios escritos corrigidos: organizadamente, a turma toda a partir da nota mais baixa até à mais alta. Nada em toda a minha vida de aluno me deu logo tanto a consciência de uma responsabilidade perante um grupo, coisa que depois passou a ser uma evidência. A nossa nota, boa ou má, a todos dizia respeito. Acho que foi naqueles primeiros anos que comecei a aprender isso, alguma consciência de estar em grupo. E outras regras que nos ensinou (ter borracha, o que se escreve a lápis, o que se escreve a tinta, dividir o que se escreve em três partes, introdução desenvolvimento conclusão, enquanto não fôssemos capazes de lidar com a nossa confusão, porque escrevemos para ser entendidos), eu sei, foi ele que nos ensinou, mas era como se fossem inventadas por nós, passaram a ser uma maneira nossa de estarmos naquela aula. Aprendi esse prazer. Quase um jogo. O modo de fazer.

 

Que nos estava a ensinar quando nos passámos a exigir reconhecer a diferença de uma caneta para outra, preferir este ou aquele papel, ter ou não o lápis afiado? Por que será que me lembro daquelas aulas com tantas saudades, como uma zona de vida diferente de tudo o mais? Ali tudo tinha o seu tempo, era como se ali houvesse mais luz. Aprendíamos Francês mas lembro-me como se fossem aulas de desenho: aprender a distinguir a cor que cada coisa tem, o seu contorno, a sombra, aprender a ver. Nada tinha peso. Tudo na minha memória se confunde com um gosto de estar ali, diferente do resto do mundo. Estava, agora sei, a aprender outra maneira de estar, de trabalhar. Aprender a ver trabalhando, a trabalhar para ver, para reconhecer as coisas e as pessoas como são, sem qualquer hierarquia, na luminosidade da sua própria matéria. E a aprender um prazer: gastar o tempo a conhecê-las, coisas e pessoas. Não é esse o mundo que nos entregam. E enquanto aprendia Francês ia aprendendo (não sobretudo, e isto é importante, mas sim também) a querer inventar outra maneira. Simplesmente. Através de uma prática partilhada. Perante um exemplo. Tudo havia de ser igualmente importante. Tudo seria outra vez inventado por nós. Sem maiúsculas e sem "filosofia", estava a aprender para sempre que o dia não tem de ser cinzento. Um exemplo? A gravata. Naquela altura obrigavam-nos, com dez anos, a ir para o liceu de gravata. Os professores também, claro. E por causa das gravatas do nosso professor de Francês a gravata para mim passou a ser uma coisa divertida, transformou-se naquilo que verdadeiramente é: uma tira de tecido que pode ter tantas cores, vários materiais e que pomos à volta do pescoço como adorno. Tinha gosto em olhar para a gravata do meu professor, gostar das cores que ele tinha escolhido, perceber se era de seda ou de lã (era quase sempre de lã), lisa ou às riscas, e como jogava com a cor do fato, ou da camisa, ou da camisola.

 

Foi com o acumular quotidiano destas pequenas coisas (pequenas? Se justamente o que nos ensinava era a generosidade de viver, era não ter a mesquinhez de as medir?), construindo cuidadosamente com as suas aulas de Francês um momento exemplar de vida, de apaixonada relação entre duas gerações, de aprendizagem do prazer de estar, conhecer, trabalhar, que julgo que desde essa altura me foi formando (e a tantos outros) na absoluta necessidade de desejar outro mundo, um lugar de alegria. Sem força. Eu vinha da terra do Bem e do Mal. Agora passava a haver a mágoa e a alegria. Sem maiúsculas, tão quotidianas como afinal tudo o mais. Era como se o Mal não fosse verdade ou passasse agora a ser apenas e sempre um desgosto: o de tantos desistirem ou irem simplesmente ficando para trás.

 

Desde as aulas de Francês que vi nele mais que tudo e através de tudo e cada coisa, um professor. Fui depois reconhecendo a sua vida, os seus livros, os seus quadros, a sua maneira de conviver ou de se isolar, como a construção passo a passo de um exemplo. Como se a vida de cada um só pudesse ter sentido se outros a continuarem onde a gente parou, sim, mas também como se a descoberta do caminho com os outros, contra os outros, a pôr tintas na tela, a escrever palavras, a conversar, a ensinar Francês, fosse a única razão capaz de tudo justificar. Mas nunca o ouvi invocar um princípio, um preceito moral. Não mentir, não trair, coisas dessas nunca nos teria dito. Não é preciso no mundo que nos ensinou a querer. Mas também isso aprendi.

 

Luis Miguel Cintra

in «Não há Morte nem Príncipio» - a propósito da vida e obra de Mário Dionísio, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1996

 

 

André Spencer e F. Pedro Oliveira para Casa da Achada - Centro Mário Dionísio | 2009-2017